31 de jul de 2009

A massacrante felicidade dos outros...

Há no ar um certo queixume sem razões muito claras.
Converso com mulheres que estão entre os 40 e 60 anos, todas com
profissão, marido, filhos, saúde, e, ainda assim, elas trazem dentro
delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo
estando tudo bem.
De onde vem isso?
Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta
Antonio Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero/ acontecimentos/ só
que quando anoitece/ é festa no outro apartamento'.
Passei minha adolescência com a mesma sensação de que algo muito
animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha
convite.
É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e
impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser.
Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na
grama do vizinho...
As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é
infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias.
Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas
angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas
fraquezas... Então, fica parecendo que todos estão comemorando grandes
paixões e fortunas, quando, na verdade, a festa lá fora não está tão
animada assim!
Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde
coisíssima nenhuma.
Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e
também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os
motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados.
Prá consumo externo, todos são belos, sexy, lúcidos, íntegros, ricos,
sedutores, enfim, campeões em tudo!
Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia - e
olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta
overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta:
'Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica
difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça.' Mas tem.
Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias,
desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa
biografia..
Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras
fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores?
Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão
de modelo exige?
Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você
sai de casa?
Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes
enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?
Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista.
As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento...
(Martha Medeiros)

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